Artigo:Reminiscências do Natal
"Como uma flecha, a minha neta Bia, irrompeu na sala, mostrando-me afogueada, um grande envelope de cor parda.
– Vovô isto acabou de chegar para você.
Sem me oferecer a mínima possibilidade de tocar na encomenda, foi-me informando com a certeza de quem já estivera fazendo uma séria investigação.
– E tem coisas ai dentro.
– Não será uma bomba? – gracejei, enquanto abria o envelope e fazia cócegas nas suas costelas magrinhas. – BUM! Explodiu!
Rindo, examinamos curioso o seu interior.
Lentamente, tomado pela surpresa e a emoção, transformei o riso num sorriso feliz e apenas disse baixinho ao ouvido da netinha.
– A Santa Casa não me esqueceu…
Ao lado de uma gentil mensagem de Natal e Ano Novo, estavam alguns pequenos brindes, entre eles, um calendário. Nele, uma fotografia esmaecida, mostrava o velho hospital em sua feição original. Não possuía o andar superior que atualmente ostenta. Ao lado da escadaria que, incólume ao tempo, dá ainda o acesso à Administração, um grupo aparecia em descontraída reunião. Médicos? Funcionários? Quem sabe? Tanto tempo…
Em frente, no grande terreno árido, baldio, como a simbolizar que aqueles eram tempos tranqüilos, uma galinha diligentemente providenciava a sua refeição.
Viajo no tempo. Exatamente como hoje, era um dezembro as vésperas do Natal. Vejo-me um jovem médico chegando à Maceió, após um périplo forçado pelo oeste brasileiro. Conhecia pouca gente e menos ainda da cidade que escolhera para viver. Era um estranho solitário. A esposa ficara no Recife vivendo os últimos dias de gravidez até o nascimento da nossa segunda filha, o que aconteceria por feliz coincidência, no dia 25 de dezembro de 1965.
Dias depois, levado por um colega, fui conhecer a sua Santa Casa. Acostumado que estava, ao grande conjunto do Pedro II, no Recife, onde fiz a minha formação médica, achei-a então pequena, embora, naqueles dias, já ocupasse todo um quarteirão, formando um complexo que incluía o belo hospital do Câncer.
Longe estava de pensar, naquele momento que, em pouco tempo, iria estabelecer com aquela Casa, uma relação que se converteria, através dos anos, em um laço indissolúvel.
Sem que o percebesse, ao ser generosamente incluído no seu corpo clínico, pouco a pouco, aquele deixou de ser para mim um simples hospital. Tornou-se minha segunda casa. Muitas vezes, a primeira.
Abrigado pelas suas paredes, durante os muitos anos em que exerci o meu trabalho, ali vivi as minhas maiores alegrias e amarguei os meus mais tristes fracassos.
Fiz amigos fraternos, convivi com sábios colegas, extraordinários seres humanos, mestres que além do seu saber na ciência médica, deram-me preciosas lições de ética e, sobretudo, da difícil arte de viver.
Vi com o imperceptível passar dos anos, a Instituição crescer, atualizar-se com o que há de mais moderno na área tecnológica, mudar as feições, tornando-se exemplar, rejuvenescer.
Preceptor informal, na minha atividade como anestesiologista, recebi e acompanhei de perto, a legião de inexperientes jovens que ali chegava e na Santa Casa, através dos anos, cresceram, transformando-se nos excelentes médicos que hoje honram a medicina de Alagoas. A alguns, confesso com orgulho paternal, devo até a vida.
O tempo passou. Um dia de súbito, vi que os meus cabelos haviam embranquecido, as mãos não mais eram ágeis e, e pior que tudo: a visão me falhava: o coração não batia vigoroso como antes. Fui obrigado a tomar uma das mais dolorosas decisões da minha vida. Tive que partir. Só Deus sabe com que mágoa.
Hoje compulsoriamente afastado, vivendo no limbo dos que passaram, não mais me entrego à tristeza. Tenho alegria de saber que mesmo distante, o vínculo que me une a Santa Casa de Maceió jamais será desprendido. A nossa união transcenderá a distância e o tempo".
Feliz Natal Santa Casa de Maceió.




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