Radioproteção: dosímetro alerta sobre riscos à saúde do trabalhador
Os estudos sobre radioatividade da francesa Marie Curie valeram à cientista dois prêmios Nobel, um em 1903 e outro em 1911. Ela não foi a única a dedicar sua vida a pesquisar as radiações ionizantes, mas foi uma das vítimas dessa mesma radiação, cujo termo radiotividade ajudou a cunhar.
Sem imaginar o perigo que corria e sem qualquer tipo de proteção, Marie Curie manipulou e descobriu os elementos Polônio e Rádio, ambos altamente radioativos. A radiação que hoje salva vidas decretou a morte de Marie Curie por leucemia.
Passados 80 anos de seu falecimento, a medicina já domina as fontes de radiação alfa, beta e gama, assim como os raios X, e suas aplicações medicinais. Hoje já se sabe que tais radiações podem ter efeitos imediatos ou no longo prazo sobre o organismo e podem interferir no DNA da célula, prejudicando a multiplicação celular e levando ao surgimento de nada menos que 800 diferentes tipos de tumores, todos reunidos sob a tutela de uma doença chamada câncer.
Já se sabe também que o concreto e o chumbo conseguem conter essas radiações ionizantes, mas que o chumbo é ineficiente contra os neutrons, sendo substituído com eficácia por polímeros como o plástico.
Mas, todo esse conhecimento não teria utilidade sem um planejamento de radioproteção que protegesse pacientes, profissionais e o meio ambiente. Até a última década, os hospitais brasileiros, regidos pela normatização do Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), delegavam a um físico médico a missão de manter o controle sobre todas atividades ionizantes no âmbito hospitalar.
Por isso, por volta de 2007, a proposta de implantação de um Serviço de Radioproteção (SR) na Santa Casa de Maceió foi recebida com surpresa. Era uma ideia inovadora que não encontrava similaridade em outros hospitais públicos e privados do país. Com a aprovação da Alta Administração da instituição, o projeto foi provado e teve início a estruturação do serviço, até sua formalização em 2012.
Liderada pelo médico físico Joaquim Ferro, a equipe do Serviço de Radioproteção é formada pelos físicos médicos Landoberg Silva Barros, Maria Fontes Maciel e Arnos da Silva Oliveira, além de técnicos em proteção radiológica e estagiários de Física Médica.
O Serviço de Radioproteção da Santa Casa de Maceió definiu diversos sistemas de controle, entre eles os de trabalhadores; de áreas; de meio ambiente e da população; de fontes de radiação e de rejeitos; e de equipamentos, além de atividades de treinamento de trabalhadores e de registro de dados e preparação de relatórios.
Uma das novidades foi definição de um plano de proteção radiológica para todos os ambientes onde se desenvolvam atividades ionizantes, alcançando hoje 100% das salas. Desta forma, cada colaborador é informado do nível de radiação daquele ambiente, a proteção necessária, os controles e os limites daquele espaço.
No tocante ao controle de radiação individual, a Santa Casa de Maceió realiza dois tipos: o controle de dosemetria e o controle biológico. O destaque vai para um sensor de radioexposição que todo colaborador precisa usar no ambiente de trabalho. Em formato retangular, similar a um crachá, o dosímetro tem em sua composição um cristal que sofre alterações diante da emissão de qualquer tipo de radiação.
“O dosímetro é enviado mensalmente a um laboratório credenciado pela Cnen em São Paulo para identificar o nível radiação a que o colaborador foi exposto naquele período. Um relatório é enviado para análise e arquivado no registro pelos próximos 30 anos”, explicou o físico médico Joaquim Ferro, coordenador e autor da proposta do Serviço de Radioproteção da Santa Casa de Maceió.
Já o controle biológico baseia-se em exames sanguíneos de rotina realizados a cada seis meses. Os dois controles ativam três níveis de investigação. Se a dosimetria do trabalhador registrar 0,2mSv (lê-se milisievert) de radiação é porque está tudo normal e faz-se apenas o registro. Se este índice chegar a 1 mSv, tem início uma breve investigação para se identificar o que levou ao aumento no período de 30 dias. Agora, caso a radiação chegue a 4 mSv ativa-se o terceiro nível, chamado tolerância, que envolve uma investigação mais minuciosa, englobando todo o histórico do colaborador ao longo dos anos.
“Uma norma recente estabelece que o trabalhador não pode receber mais do que 20 mSv no período de um ano. Na Santa Casa de Maceió raramente temos registro de colaboradores com 1mSv no mês”, comentou Joaquim Ferro.
Esse acompanhamento mensal da saúde do trabalhador envolve mais de 200 colaboradores, entre médicos, físicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e técnicos em radiologia que trabalham no setor e conta com a participação da Medicina do Trabalho.
“No passado, a falta de informações sobre a exposição a radiações ionizantes poderia ser responsável pelo afastamento de profissionais de sua atividade. Já na última década não tivemos esse tipo de registro”, comentou Joaquim Ferro, há 38 anos atuando com radioproteção, dos quais 26 só na Santa Casa de Maceió.




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