Cintilografia: Santa Casa muda rotina para minimizar falta de radiofármaco
A crise no fornecimento mundial de tecnécio – elemento radioativo oriundo do molibdênio-99, utilizado em 80% dos exames da medicina nuclear em áreas como cardiologia e oncologia – reduziu em 50% o número de atendimentos na Santa Casa de Maceió. Se em junho do ano passado o Centro de Diagnósticos registrou 700 exames de cintilografia, este ano esse número não passou dos 350.
“Um grande hospital, referência nacional no combate ao câncer de , por exemplo, a queda foi ainda maior, caindo de 2 mil exames para menos de 1 mil. Ou seja, hospitais com maior demanda de pacientes estão sentido mais os efeitos da crise”, disse André Gustavo, especialista em medicina nuclear, lembrando que a Santa Casa de Maceió é responsável por mais de 50% dos exames realizados pelo SUS em Alagoas. “A crise não atinge apenas o Brasil, mas todos os países do mundo”, complementou Marcelo Farias, outro especialista da instituição.
A crise no fornecimento de tecnécio não atingiu procedimentos que utilizam o iodo-131, dentre eles a cintilografia da tireóide e de corpo inteiro; o tratamento da hipertireóide e a iodoterapia do câncer de tireóide.
Questionado sobre a importância da medicina nuclear para a saúde, Marcelo Farias explicou que a cintilografia “enxerga” alterações no organismo que só serão identificadas meses depois pelo raio-x ou pela tomografia, ou seja, quando a doença já pode estar em estágio avançado.
Outra vantagem para o paciente e para o médico é que o radiofármaco orienta o profissional a decidir pelo melhor tratamento. No caso da cintilografia do miocárdio, de acordo com diagnóstico o paciente pode ser submetido ao cateterismo ou a outro procedimento.
Marcelo Farias frisa que o Centro de Diagnóstico está recebendo 1/4 da quantidade de tecnécio que recebia no ano passado, o que levou o órgão a rever seus protocolos a partir de junho. Para minimizar o impacto da crise foi necessário fazer uma otimização da agenda de exames. “Cada paciente agora passa mais tempo fazendo a cintilografia, o que levou a aumentar o horário de atendimento”, detalhou André Gustavo.
Perguntado se há uma luz no fim do túnel, Gustavo disse que a situação pode ser minimizada até o final do ano, mas que a solução definitiva para o problema só viria em 2016 se o Brasil levar adiante o projeto de construir um gerador de molibdênio. “Para o país ter o seu próprio gerador nesse prazo será preciso R$ 500 milhões e vontade política para seguir o cronograma de obras”, finalizou.
Histórico
A Comissão Nacional de Energia Nuclear fez uma análise sobre a carência de molibdênio-99 no mundo. O Brasil consome aproximadamente 5% da produção mundial de molibdênio-99, ao custo de US$20 milhões ao ano. O país compra o produto da empresa canadense Nordium, vencedora de licitação internacional que comercializa o molibdênio proveniente do Canadá. A matéria-prima é produzida em apenas quatro reatores: o NRU, no Canadá; o HFR-Petten, na Holanda; o Safári, na África do Sul; e o BR2, na Bélgica.
A crise foi deflagrada com a parada do reator canadense em maio deste ano mas a previsão é de que a instalação volte a operar apenas no fim deste ano. O reator da Holanda também está inoperante. Juntos, esses dois reatores respondem por 64% da produção mundial e a parada de um ou mais deles causa um efeito devastador no atendimento à demanda deste produto, explica o superintendente do Ipen, Nilson Dias Vieira Júnior.
Desde junho, o país vem recebendo um reforço de molibdênio da Argentina, quantidade capaz de suprir 30% das necessidades nacionais. Aquele país apenas fabrica o produto para seu mercado interno e a aquisição do produto foi conseguida em tempo recorde, contando com a colaboração da Comissão de Energia Atômica da Argentina.
O presidente da CNEN, Odair Dias Gonçaves, apontou as alternativas que têm sido buscadas pela equipe de crise, buscando encontrar soluções para minimizar os impactos para os milhares de pacientes que dependem dos exames.
Foram estabelecidos contatos com outros países para uma possível importação do produto, entretanto as perspectivas são limitadas devido a restrição do número de reatores em produção mundial. A África do Sul sinalizou com a possibilidade de fornecimento de quantidade equivalente a um terço das necessidades do Brasil, a um preço 50% acima do praticado pela Nordium e com pagamento adiantado. Mesmo aceitando todas essas condições, esta semana o reator sul-africano não dispunha do material para a aquisição pelo Ipen.
A produção no país e a compra de outros radiofármacos que possam substituir exames em que o tecnécio é utilizado, como o tálio e gálio, também está sendo uma das alternativas. O Ipen está em contato com Israel para aquisição de tálio-201 e gálio-67, mesmo que a preço 50% maior que o praticado pela empresa canadense Nordium. Esta empresa tem fornecido tálio, porém em quantidade inferior à demanda, que cresceu em pelo menos 10 vezes desde o início da crise. Com informações adicionais do Ipen.
Fonte: Assessoria de Comunicação da Santa Casa de Maceió




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